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Especial - 18/11/2009
A pioneira Inês Mitsuko Ishii Martos é proprietária de uma das mais tradicionais serrarias de Ivaiporã, a Serraria Brasil, empresa que sempre foi conhecida como a Serraria da Dona Inês. 

Nascida na cidade de Martinópolis (SP), em 5 de fevereiro de 1937, casou-se com Pedro Marques, com quem veio para Ivaiporã em 1956 e teve dois filhos: Dirceu (falecido) e Divonsir Martos, que é advogado.

Em entrevista ao jPC, dona Inês e o filho Dinvosir Martos contam os detalhes da sua vida antes da instalação do município de Ivaiporã, quando este ainda pertencia a Manoel Ribas.

JPC - Quando e como vocês chegaram a Ivaiporã?
Inês Ishii - Chegamos em fevereiro de 1956. Nasci em Martinópolis, mas morava em Apucarana, de onde vim. Casei aqui em Ivaiporã.

JPC - Quem a trouxe   para Ivaiporã?
Inês Ishii - Quem veio primeiro foi o Pedro, junto com seu finado cunhado, o Julio Lopes e a dona Carmem. Eles vieram primeiro e o Pedro, que morava com eles, veio também. Na época namorávamos, éramos praticamente casados.

JPC - Como o senhor Pedro ficou sabendo de Ivaiporã e qual foi o objetivo dele ter vindo?
Inês Ishii - Ele veio com a dona Carmem e o cunhado Julio Lopes, que era corretor e já morava aqui desde 1955. O Pedro morava com eles e trabalhava na máquina de arroz. 

JPC - Como eles falavam que era a cidade de Ivaiporã?
Inês Ishii - Quando viemos a cidade era só barro, não tinha avenida. Havia algumas casinhas de madeira, um hotel, um bar e uma padaria. 

JPC - Que atividade a senhora exercia em Apucarana, antes de vir para Ivaiporã?
Inês Ishii - Eu trabalhava na Casa Buri, era escriturária e o Pedro era sub-gerente. Depois que o Pedro resolveu vir para Ivaiporã, com a irmã Carmem e o cunhado Julio, eles abriram a máquina de arroz e o Pedro ficou trabalhando com a irmã.

JPC: As pessoas já plantavam muito arroz aqui naquela época? 
Inês Ishii: Tinha. E quando nós morávamos ali, na esquina onde era a Nortrac, tínhamos um chiqueiro de porco, e nós plantávamos verdura. Havia também um hotel lá na esquina, onde hoje é o Posto do Carmo e também o bar do Sr. Mário. 

JPC: Quanto tempo o Pedro ficou na máquina de arroz?
Inês Ishii: Ficamos uns 5 a 6 anos e depois montamos a serraria aqui neste local (próximo à Cativa).

JPC - Por que ele mudou de ramo da máquina de arroz para a serraria?
Inês Ishii - Porque ele era empregado e achou melhor montar a serraria.

JPC - Tinha muita gente abrindo a cidade?
Inês Ishii - Sim, havia muita gente abrindo a cidade, tinham muitas toras de pinheiro. Eu morava aqui numa casa de madeira, onde o Divonsir nasceu. Já, o Dirceu, nasceu quando morava na casa anterior. 

JPC - Na época, havia um volume muito grande de madeira para trabalhar?
Inês Ishii - Tinha muita madeira, mas não tinha o movimento, igual agora, que sai e chega caminhão, a venda fora era muito pouca.

JPC - Então o serviço que vocês prestavam era praticamente para atender as pessoas que estavam chegando?
Inês Ishii - Era mais para serrar, às vezes, o Pedro levava tora de Imbuia para Maringá. Além disso, atendia muita gente daqui, que derrubava, cortava e fazia suas casinhas.

Divonsir - Eles faziam as casas do sítio, o próprio pessoal vinha combinar para serrar por empreita. Íamos até o sítio buscar a madeira para cortar, serrar e levar de volta. 

Mesmo na hora de serrar, o pessoal do sítio vinha aqui na serraria para fiscalizar, iam separando, pois na época não havia muitos funcionários para carregar a madeira, tínhamos só para serrar. 

Os próprios sitiantes, com seus filhos e parentes, vinham ajudar a carregar. A casa do pai do Paulo Belo foi feita assim. 

O Paulo, quando era pequeno, cansou de vir aqui ajudar carregar madeira no lombo. Praticamente, atendíamos as pessoas que chegavam aqui na cidade. Porque antes os sitiantes não tinham casa de material, era tudo de madeira. Antes, quem morava no sítio construía aquelas casinhas de sapé, depois, eles iam colhendo o que produziam e faziam as casas de madeira; muito tempo depois é que construíam a casa de material. 

Quando eles iam fazer essas casas de madeira, eles vinham até a serraria para serrar a madeira.

JPC - Como a serraria era tocada antes?
Divonsir - No começo, não tinha eletricidade, a serraria era tocada a vapor. O sistema era como o de uma locomotiva de um trem, ou seja, com água quente nas caldeiras, que, para dar pressão, tinha que ir colocando a lenha e esquentando a água para produzir mais vapor. 

Na época, não tinha luz elétrica, mas um motor estacionário, que fornecia energia para a cidade inteira. À meia-noite ele desligava e acabava o barulho. Quem tinha que tomar banho ou fazer alguma coisa tinha que ser antes da meia-noite.

Inês - De manhã cedo, às vezes, quando íamos viajar para Londrina, mesmo depois de ter vindo a energia elétrica, de tão acostumada, eu acendia vela para iluminar, ao invés de acender a luz.

JPC - Quanto tempo vocês tocaram a serraria com o maquinário funcionando a vapor?
Inês Ishii - Uns quinze anos, pois em 1962, que iniciamos a serraria. Mesmo quando veio a eletricidade, era meio precário, e não tinha tanta eletricidade, por isso, continuamos um pouco mais a vapor. 

Chegou a eletricidade, mas não tinha para abastecer a parte industrial, tivemos que fazer um investimento para comprar um transformador.

JPC - Naquela época, que tipo de madeira era mais comum serrar?
Inês Ishii - Pinheiro, peroba, imbuia. A imbuia era mais difícil de serrar. Naquele tempo, eram comuns as toras grandes, não via essas toras que hoje se parecem com um palito. 

Às vezes, o Pedro levava tora para Maringá e aqui perto, em Lunardelli e Pouso Alegre. Muitas vezes, o caminhão encalhava e tinha que pernoitar onde estava. 

As viagens podiam durar até uma semana. Em Ivaiporã, era comum dar enchente quando chovia, só tinha o riozinho e não tinha essas pontes,como na Vila Santa Maria. 

Como só havia essa entrada, quando enchia, nós ficávamos ilhados, não entrava, nem saía. 

JPC - Antes da colonização, o acesso secundário a Ivaiporã era o principal acesso da cidade?
Inês Ishii - Sim, e quando chovia, os carros e caminhões encalhavam, tinham que posar aqui de três a quatro dias. Quando faltava gasolina e comida, nós é quem socorríamos as pessoas. 

À noite, as pessoas encalhavam e vínhamos iluminando e emprestávamos o trator para socorrer.

JPC - Quando o senhor Pedro faleceu?
Inês Ishii - Foi em 21 de abril de 1966. De lá para cá, vim tocando a serraria. Hoje, eu tenho outro marido, o Antonio. Sozinha eu toquei a serraria por dez anos.

JPC - Qual era a principal dificuldade que a senhora enfrentava naquela época?
Inês Ishii - Parece que as coisas não eram tão difíceis como agora. As despesas, os estudos, caminhão a gente comprava em prestação, tínhamos muitos funcionários e todos tinham moradias aqui mesmo, porque construímos as casas justamente para os funcionários morar e sem custo de aluguel.

Divonsir - Naquela época, a mão-de-obra era difícil, as pessoas só vinham se tivessem alguma vantagem, como moradia e salário melhor. Ivaiporã não era um lugar grande, como Londrina, Maringá e Apucarana, que já tinham indústrias, então, o pessoal só vinha aqui para fazer o pé-de-meia ou se aventurar. 

Antigamente, quando não tinha casa separada para os funcionários, morávamos todos juntos, no mesmo local.

JPC - Vocês tiveram um problema com incêndio da serraria?
Divonsir - O incêndio na serraria foi em 1996. Os funcionários ficaram todos desempregados e tivemos que indenizar e fazer acordo com todos eles. Tem muita gente que se aposentou por aqui, pois sempre trabalhava registrada. E nunca tivemos problemas com ações trabalhistas. 

Mas perdemos tudo que tínhamos construído e tivemos que começar tudo de novo, primeiro com um depósito, pois já tínhamos o ponto aberto, mas devido às dificuldades, encerramos as atividades com a madeira.

JPC - Era mais fácil tocar a serraria naquela época?
Divonsir - Havia muita matéria prima e a relação com o pessoal era mais tranqüila, pelo menos nunca tivemos desavenças. Os funcionários viraram nossos compadres. 

Os primeiros que trabalharam conosco desde o começo se aposentaram, os que saíram também faltava pouco tempo para se aposentar, e cada um já tinha a sua própria casa.

Inês Ishii - No começo era mais fácil, não tinha esse negócio de cheque, era somente de boca, então as pessoas cumpriam o que acordavam, e nós conhecíamos todo mundo em Ivaiporã. 

Divonsir - Até a relação patrão e funcionário era melhor, pois é obrigação ser tudo certinho, quando do incêndio na serraria nós tínhamos trator, caminhões e tivemos que vender tudo para acertar os funcionários.  

Na serraria eram três barracões: a indústria, o afiador, que afiava as serras, as máquinas e plainas que faziam forro, assoalho e beneficiavam, além do depósito. 

O fogo queimou tudo; estocamos muito forro de pinho no depósito e, naquela época, não havia Corpo de Bombeiros, só o caminhão pipa, então, até esse caminhão encher de água para vir aqui, queimou tudo.

JPC - Qual é a satisfação da senhora ter podido vir até Ivaiporã e ter formado seus filhos e ajudar a construir a cidade?
Inês Ishii - Eu tenho uma satisfação boa, gosto de Ivaiporã e nunca quero mudar daqui, não tenho esse pensamento.


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